Crónicas de Viagem - Canadá
 
A foto é dos Jardins de Butchart. Colúmbia Britânica. Um dos
mais belos locais desta região canadiana, e com um particular simbolismo
social. O empresário Robert Butchart e a sua esposa, cientes dos estragos
causados na paisagem pela sua cimenteira, decidiram criar, no século passado,
um magnífico jardim e oferecê-lo à comunidade como uma espécie de
contrapartida.

Um milhão de espécies distintas de flores fazem parte deste soberbo
local, ideal para longas caminhadas. As preocupações deixam de existir numa região
onde muitos dos habitantes são altos, espadaúdos e de olhos em bico. Tal
deve-se, li, à maciça imigração de chineses para aquela zona do globo para
trabalharem na construção da Pacific Railway, uma linha de caminho de ferro que
une o Canadá de costa a costa.



O Canadá que eu conheci começa a resumir-se no aeroporto de
Vancouver. Um aeroporto museológico, onde a beleza da arte e das paredes se sobrepõem à rigidez do controlo alfandegário. À chegada, depois de minuciosamente inspeccionados, somos logo avisados por um polícia de mapa na mão: “podes andar
pela cidade à vontade desde que não passes em East Hastings. Aí podes ter problemas. Não nos responsabilizamos”.

É a tal zona de risco de Vancouver para onde são escoados os
problemas. De resto, toda a cidade é pacífica. Podemos andar à vontade. Há
pedintes não muito insistentes e facilmente eliminados dos longos passeios. Há
prédios altos mas ordenados. Há a “Granville Street”, ligada à arte, à animação
e ao cinema, onde se podem assistir a excelentes espectáculos de rua. Os
cinemas proliferam. Não é difícil arranjar-se que fazer. É difícil ter tédio.

Se na Escandinávia a educação abafa toda a prevaricação (tudo
funciona tão bem que ninguém tem “lata” para contrariar o sistema), no Canadá
as coisas parecem funcionar mas de outra maneira. Mais à base daquilo que eu
chamo de “civismo musculado”. Há uma rédea muito larga mas há rédea. E, se a
ultrapassamos, há chatices. Chatices a sério. Ali não se brinca.

Mas também há méritos. Como aquele inesquecível “páratudo” no jogo dos Vancouver Canucks para se homenagear dois bombeiros em finalde carreira. Ou aquela imagem que guardo de passear pelas ruas em plenacampanha eleitoral, sem cartazes e com os jornais a dedicarem um pequeno espaçoa cada um dos candidatos. Tal como na Escandinávia: quando tudo funciona bem,parece que o papel do político vai fugindo do universo do “star system”.