Rasgando uma folha de entre as muitas que tinha no bloco, por entre sorrisos traquinas, procurava encontrar uma razão para que todo aquele embaraço acabasse. Em cima da cabeceira, do seu lado direito, estava um telefone, que sabia ela, a qualquer momento tocaria. O desespero e a ansiedade recaíam sobre os ombros dela enquanto insistia no desespero de ouvir o sinal sonoro. Soltado o papel das argolas pequenas, finas e duplas do bloco, a caneta foi o alvo seguinte. Recaiu o seu pensamento, momentâneo para a direção da mesma. A vontade de se levantar era pouca, mas sabia que o tinhas de fazer. Preferia aguardar o telefonema e só seguidamente ir em direção à esferográfica. De repente, assim que percebeu que o telefone podia esperar, levantou-se, arrependendo-se milésimos depois quando o "ring" do telemóvel soou. Regressou, já a meio do caminho, ao seu lugar de origem, segurando já o telemóvel. A chamada apenas dizia: "Acabou". Ela sabia, exatamente o que aquilo era. Afinal, aquele papel era apenas para apontar tudo o que ela poderia fazer nos dias restantes, com a sua avó, doente. Mas parece que não foi a tempo. A caneta, já na mão, sustendo o seu peso, caiu no chão estremecendo-o. As lágrimas começavam a escorrer na sua cara. O texto que iria escrever naquele papel foi substituído por gritos de raiva e de dor. Apenas assim chegou à conclusão que a vida tem de ser vivida intensamente com os outros e que poderemos não escrever dez ou onze palavras a tempo, mas um sorriso ou um olhar, uma vez, podem valer mais que um grito, que uma imagem, que um sorriso. Assim como aquelas palavras que não nos podemos dispensar de dizer apenas uma vez, ou mais, apenas um "amo-te" poderá fazer toda a diferença e pode tornar qualquer sofrimento, por maior que seja, num sorriso de orgulho.

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